
Despistei-me!
Não foi mais um dos meus despistes da psique, mas efectivamente um despiste automóvel.
Os meus domingos começam a ser cada vez mais interessantes, o penúltimo deu para uma dissertação sobre companhia, este deu para um susto inédito e para uma reflexão sobre as prioridades dos organismos responsáveis por ajudar os comuns em caso de emergência…
Passo a explicar.
Há uns dias atrás, passava como habitual no cruzamento da N13 com Vilar do Pinheiro, fazia um trajecto normal, sozinha no carro quando percebo que minutos atrás acabava de se dar um acidente entre uma carrinha e uma mota. O condutor da mota, inanimado e caído no chão, a condutora de mãos na cabeça agarrada ao telefone.
Não parei, porque infelizmente não possuo nenhum curso de primeiros socorros, mas fiz o que qualquer cidadão faria, liguei para o 112.
Tocou, tocou, tocou e a chamada desligou-se com uma mensagem no ecrã do telemóvel “não responde”, insisti e o cenário repete-se, ninguém atende e a mesma mensagem “não responde”. Como não sou de desistir voltei a ligar, afinal é o 112, alguém há-de atender, nem que seja depois de falar com a amiga sobre as novas unhas de gel, ou de lançar mais um ataque no Travian.
Desta vez o senhor da emergência atendeu!
Relatei o que havia visto e acrescentei ingenuamente uma pergunta:
- Desculpe, mas não é suposto atenderem à primeira? Afinal é o número de emergência… É que só atendeu à 3ª e como sabe, em certas situações, 5 minutos fazem a diferença entre viver e morrer.
Obviamente recebi a resposta que merecia:
- Minha senhora, o telefone tocou e eu atendi, por isso verifique o seu equipamento telefónico! Vou passar à equipa médica…
Tem toda a razão, como não pensei nisto antes???? Lá estou eu indignada por ninguém atender uma chamada num serviço cujo único propósito é… atender chamadas urgentes! Crazy me….
Provavelmente o Sr. 112 sabe muito mais que eu, se calhar tem acesso a informação privilegiada, e sabe de um conluio alienígena cuja principal ferramenta de domínio da Terra são os telemóveis e, sempre que alguém liga 112 desviam a chamada para uma repartição pública qualquer tipo finanças ou centro de saúde. Daí ninguém atender…
Inteligentes estes aliens….
Contrariamente a esta ineficácia do 112, diria até na antípode deste serviço, está um serviço privado chamado BRISA ou AENOR.
E isto leva-me ao meu despiste.
Por alguma razão que para já desconheço o carro fugiu-me, tentei controlar mas não possuo a técnica necessária para me impor à máquina e bati no raile esquerdo, depois no direito e parei.
Controladamente e tentando não entrar em stress, puxei da carta verde e liguei para a assistência em viagem dando conta do acontecimento.
Nome, local de embate, contacto telefónico e um “aguarde por favor que o reboque está a caminho”.
Foi num ápice que apareceu socorro, não a Brigada, não o reboque, não ambulância pois não foi caso para tanto, mas o Senhor da AENOR.
- BOM DIA!
Ora para quem acaba de se estatelar toda, bom dia não será propriamente o que mais desejamos ouvir, mas ok, a boa educação tem sempre lugar.
Prontamente o Sr. Aenor saca de um bloco com folhas esquematizadamente organizadas, contendo um questionário de identificação.
- O seu nome?
STOP!!!!!
Mas afinal quem é você e a que propósito tenho de me identificar à empresa concessionária das auto-estradas deficientes do norte? Há algo que me está a escapar…
- É a proprietária do veículo?
- Fornece-me por favor o seu Bilhete de Identidade?
WHAT??? Como diria a Magda : Num tou intendendo….
Resolvi responder:
- Obrigada, estou bem! São coisas que acontecem. Já liguei para a assistência em viagem e aguardo a chegada do reboque. Obrigada.
A meio da minha resposta já estava o Homem Aenor munido de uma máquina digital a tirar fotos a torto e a direito.. e logo hoje que estava de fato de treino e cabelo apanhado. Espere lá, deixe-me ao menos tirar esta mecha de cabelo desarranjado da frente do olho direito, é o meu melhor lado J.
Tirava fotos ao carro, tirava fotos às bermas… cheguei a pensar que iria fazer parte de um novo anúncio sobre prevenção rodoviária.
Chegou o reboque! Ufa…. Tava a morrer de frio e com um desejo enorme de sair dali rapidamente.
- Olá menina, está bem?
O Sr. Reboque afinal tem mais sensibilidade debaixo daquelas roupas negras de óleo do que o outro “inspector”.
- E então para onde vai o carro?
Antes da minha resposta, o Aenor Man reaparece a informar que o carro não vai a lado nenhum pois tinha chamado a brigada.
Comecei lentamente a ficar verde….. mas afinal quem é este gajo e o que quer?
Perguntei:
A que próposito chamou a brigada? E com que autoridade impede o reboque que EU CHAMEI de sair daqui com o MEU CARRO?
Simples, vamos lá dar prioridade ás coisas…
Eu tive um acidente e danifiquei propriedade da AENOR, portanto os inquéritos, fotos e demais serviam apenas para garantir que a Aenor tem quem lhe pague os railes. Se há sangue, pânico ou mortos isso é questão para depois do inquérito “xyz” que identifica o causador de danos e garante o pagamento.
Cada coisa a seu tempo e por ordem de importância.
Entretanto chegou a brigada, mesmo a tempo de impedir um sinistro maior, despiste seguido de homicídio.
Blá, blá blá e lá vou eu de reboque para a oficina.
Estas duas situações, muito próximas no tempo, levaram-me a pensar….
Imaginemos lá este cenário:
Liga para o 112, o atendimento é efectuado na Brisa, ou Aenor ou whatever, e relata o acidente dizendo:
- Bom dia, queria comunicar um acidente ocorrido em local X, onde ficaram feridos 6 railes, 1 separador e 1 placa de sinalização.
- Ah, só por curiosidade, vi uma pessoa a sangrar como um porco, não sei se será melhor enviar junto com o técnico um medico e um disfibrilador, mas venham rápido porque aquela placa deve estar mesmo mesmo a cair, e não sei se depois haverá reparação possível.
Em 5 minutos chegarão os meios e recursos necessários… e com sorte, o médico chegará também!
Não será esta a solução para as centenas de casos de pessoas que sucumbem aos ferimentos, ou cuja gravidade se torna irreversível devido ao atraso do INEM.
Caros amigos e amigas, em caso de acidente…. Esmerem-se por o ter em propriedade privada das concessões citadas, são como os hospitais, podem pagar mais um bocadinho mas não ficam em lista de espera!
Lutemos todos para a fusão destes serviços e para a instalação de um disfibrilador nas carrinhas de assistência
INTÉ
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